Amadurecimento, Crises, Individuação, Luto, Resiliência, Superação, Traumas

Crises e traumas – artigo revista Psique – Ciência & Vida

Esse artigo tem como objetivo apresentar uma reflexão sobre os enfrentamentos da dor, buscando oferecer alguns parâmetros que ajudem a identificar crises, que em alguma medida são passageiras e que podem ser superadas, de outras situações em que o sofrimento se instala mais permanentemente, podendo inclusive alterar a estrutura da personalidade e tornar a vida disfuncional em vários ou em todos os seus âmbitos. Esse segundo caso inclui formas patológicas de sofrimento, como depressões e especialmente os traumas.

Quando estamos diante de uma situação de sofrimento, nossa ou de uma pessoa próxima a nós, é comum que certas perguntas surjam: Qual é o tempo aceitável de um luto ou do sofrimento por uma perda ou por enfrentar qualquer outra situação dolorosa da vida? Quando o sofrimento é uma tristeza e quando se torna depressão? Como podemos saber se uma pessoa está em crise e conseguirá superá-la ou se o seu sofrimento está se tornando uma patologia, uma doença?

O que aqui se coloca é a necessidade de diferenciar crise, ou seja, uma condição que inclui oportunidade de transformação e crescimento, de patologia ou um adoecimento psíquico.

Feridas e traumatismos psíquicos

Da mesma forma que um machucado físico pode infeccionar se não receber os cuidados adequados e, dessa forma, nos paralisar e até mesmo ameaçar a nossa vida, uma ferida psíquica também pode resultar em outros danos secundários, causar imobilidade na vida do indivíduo, o que, em situações extremas, pode significar a própria morte, devido a doenças, acidentes e mesmo o suicídio, todos decorrentes da impossibilidade de lidar com a dor.

Dor e a frustração são experiências naturais da vida. Embora indesejados, o sofrimento, o luto e as perdas fazem parte da biografia de qualquer ser humano. Na história de Sidarta Gautama, vemos que foi quando deixou a proteção do palácio real e se deparou com a penúria, a velhice, a doença e a morte, que ele começou seu caminho de vida verdadeiro, alcançando por fim a iluminação.

Sendo assim, embora vivamos o tempo todo buscando evitar sofrimentos, estamos sujeitos a eles em função da própria fragilidade e impermanência da vida humana. Quando eles acontecem, tanto podem ser grandes impulsionadores de processos de amadurecimento e evolução quanto podem causar paralisias, uma vez que muitas pessoas, traumatizadas pelos eventos e incapazes de assimilá-los, sucumbem à dor.

Crises e traumas – como diferenciá-los

A palavra crise vem do latim crĭsis e significa “momento de decisão, de mudança súbita”. No grego, krísis, é derivada do verbo krínō, “separar, decidir, julgar” e significa “ação ou faculdade de distinguir, decisão”. Na medicina, o termo era usado para indicar os dias que constituíam momentos decisivos na evolução de uma doença. Estes eram acompanhados muito de perto, pois podiam significar o encaminhamento para a cura ou para a morte.

Já a palavra “trauma” vem do grego trauma, traumatos, cujo significado é “ferida”. Era usada inicialmente na medicina com sentido de lesão causada por um agente externo, sendo que depois o conceito migrou para o campo psicológico, e, mantendo analogia com a área médica, refere-se a eventos em que as defesas naturais, no caso, psicológicas, são transgredidas.

Começamos a observar aqui diferenças muito significativas entre crise e trauma. Enquanto o trauma carrega em si uma conotação quase que única de afetamento por um fator externo, a crise comporta dois caminhos diferentes, um que pode ser considerado benéfico e outro não. Além disso, a crise envolve um componente decisório, de escolha e julgamento, que não é observado no trauma. Podemos dizer que neste último a atitude que prepondera é de receptividade apenas e que a crise compreende uma postura mais ativa.

Freud teve o trauma como tema central de suas pesquisas desde o período inicial de seus trabalhos. Depois da formulação que buscava entender os sintomas histéricos e os vinculava a um possível trauma sexual e que estaria associado à sedução exercida por um adulto em relação a uma criança, em 1920, com o texto Além do princípio do prazer, ele reformulou sua teoria. Interessado então muito mais na economia da energia psíquica, ele passou a entender o trauma como decorrente do aumento da recepção de excitações externas pelo aparelho mental. Seu entendimento era de que existe um escudo protetor na camada superficial do aparato psíquico, cuja função é preservar este aparato dos estímulos externos intensos. Quando excitações externas são poderosas o suficiente, elas atravessam o escudo protetor, e o aparelho mental, então desprotegido, é invadido por uma grande quantidade de estímulos. A ruptura que afeta o aparelho psíquico fazendo-o se desequilibrar devido ao fluxo de energia que não consegue controlar é o trauma.

Na tentativa de recuperar o equilíbrio energético, mecanismos diversos desviam energia para “onde” ocorreu a ruptura– é preciso, entre outras coisas, reprimir algumas lembranças, reviver certos fatos repetidamente, estar sempre alerta para eventos semelhantes e assim por diante. Como consequência disso, outros sistemas psíquicos ficam depauperados, roubados de sua própria energia, de modo que as funções psíquicas que lhes correspondem são grandemente bloqueadas ou reduzidas.

Essa descrição é muito parecida daquelas que se referem ao que acontece quando temos um machucado físico. No caso de um fator externo romper nossa barreira de proteção corporal, diversos processos bio-fisiológicos são aí colocados em movimento para restabelecer o mais rápido possível o equilíbrio. Muitas vezes isso se dá em detrimento de outras funções orgânicas, que ficam reduzidas ou paralisadas, pois o corpo entende que a maior parte da energia deve ser canalizada para sanar a situação emergencial que o ameaça. Nessas situações, conscientemente também procuramos nos cuidar e auxiliar o organismo com outros recursos disponíveis e precisamos, no mínimo, aquietar o corpo para que ele se cure, para que a lesão cicatrize e o organismo se restabeleça.

Como visto, quando há uma ferida psíquica, elas seguem seu curso curativo quando encontram condições naturais e benéficas para isso. No entanto, uma ou outra pode infeccionar e tomar o rumo da real instalação de uma traumatização, aquelas feridas que parecem nunca fechar. Isso acontece quando não são encontradas as condições satisfatórias para o processo de cura, quando, por motivos diversos, a pessoa não dispõe de recursos internos para lidar com a situação ou quando o elemento invasor é intolerável e está além das possibilidades de elaboração do indivíduo a ele submetido.

Em maior ou menor grau, nesses casos essas feridas paralisam, impedem e causam rupturas mais permanentes na vida, incluindo aí até mesmo a morte. A depressão e diferentes formas de vício e dependência são outras manifestações de um machucado que infeccionou. Em algum nível, todas essas situações causam bloqueios em diferentes âmbitos da vida ou na vida como um todo.

O mais dramático disso é que essas dificuldades não são reconhecidas como um adoecimento que necessita de cuidados, suporte e tratamento. Ao contrário, muitas vezes são confundidos e tachados como desvios de caráter, fraqueza de personalidade e más qualidades pessoais. Os sintomas de um trauma dificilmente são reconhecidos como tal. O fato é que a vitalidade, a criatividade e a própria vida ficam impedidas. Por causa disso, é importante entender e discriminar os processos.

LER MAIS NA ÍNTEGRA DO ARTIGO NA EDIÇÃO DE MAIO (Nº 113) DA REVISTA PSIQUE (www.portalcienciaevida.com.br):

Etapas de desenvolvimento e outras características de uma traumatização

Resiliência

Todo trauma envolve uma crise, mas nem toda crise envolve um trauma

Etapas da crise em situações de luto

Etapas do trauma (segundo Bernd Ruf, organizador de um movimento internacional de apoio a situações de catástrofe)

As possibilidades de transformação e amadurecimento

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