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FAMÍLIA EH! FAMÍLIA AH! NOVOS ARRANJOS – TRABALHO APRESENTADO NO VII CONGRESSO LATINOAMERICANO DE PSICOLOGIA JUNGUIANA – BUENOS AIRES

O que aconteceu com os grupos familiares que eles se modificaram tão radicalmente nas últimas décadas? O que vem acontecendo mostra que a família não dá mais conta de sustentar as novas aspirações do homem/mulher contemporâneos? Ou, ao contrário, que é tão forte que é capaz de atravessar e sobreviver a mudanças sociais e culturais muito radicais, acompanhando-as e se reinventando sempre?

 

A reflexão proposta neste trabalho surgiu da percepção de que os novos arranjos dos grupos familiares ainda causam surpresa e algum estranhamento em nós.

Estamos falando da enorme variedade de organizações familiares alternativas que começaram a ser inventadas desde os anos 1980 e que no final do século passado abalaram fortemente a prevalência da família nuclear conjugal – pai, mãe e filhos. Essa tão antiga instituição que é o casamento e a vida conjugal, a família em geral, chega à contemporaneidade enfrentando uma série de transformações que determinam o surgimento de inúmeros novos arranjos, os quais configuram a chamada família pós-moderna, ou pluralista, definição que surge em função das múltiplas formas alternativas de convivência e vínculos que apresenta: relações hetero e homoafetivas, casamentos sucessivos com parceiros distintos e filhos de diferentes uniões, casais que escolhem não ter filhos, casais homossexuais que optam pela adoção de crianças ou pela reprodução assistida, uniões consensuais, “produções independentes”, famílias monoparentais, duplas de mães solteiras ou separadas que se organizam para compartilhar a criação de seus filhos, casamentos que implicam em dividir ou não a mesma casa, relações abertas (em vários graus, dependendo de um arranjo dos parceiros) e outras estruturas muito novas, como as dos grupos de poliamor, são apenas alguns exemplos dessas experiências.

 

Em meio a tudo isso, mesmo para aquelas pessoas que buscam tal liberdade em seus relacionamentos, que viveram a quebra de modelos ditados em busca da reconstrução de vínculos que não estavam satisfatórios, vê-se que eventualmente o apelo dos padrões tradicionais é muito forte. Especialmente a ideia de que a estrutura nuclear conjugal da família é a realidade única, aquela que deve ser buscada e reproduzida, gera muitas dúvidas, tensões e preocupações.

Ainda que as transformações recentes possam estar alicerçadas num individualismo crescente, na competitividade e no consumismo que adentram até mesmo as relações pessoais, também é preciso admitir que nunca as relações foram tão complexas, no sentido de permitir que parceiros compartilhem experiências cada vez mais profundas e abrangentes, como aquelas que tangem as esferas da vida sexual, profissional, intelectual, do sentido da vida e da experiência de amor propriamente dita. Então, apesar de o aumento das separações e divórcios, talvez isso indique que as pessoas valorizam e almejam como nunca a construção de uma vida em comum, não se satisfazendo em atravessar a existência suportando relações insatisfatórias e pouco verdadeiras.

A família não foi sempre o que imaginamos e vivemos nos dias de hoje. Na verdade, a família nuclear conjugal é uma invenção bem recente. Família é simplesmente (e complexamente também) uma produção de diferentes formas históricas de organização entre os indivíduos, que foram movidos a se agrupar premidos pelas necessidades materiais de sobrevivência e de reprodução da espécie.

Na Roma Antiga, a família englobava todo o grupo social sob o poder de um chefe, incluindo, portanto, sua mulher, filhos, escravos e servos. Já na Idade Média, os casamentos significavam um arranjo feito por escolha das famílias e que consistia numa espécie de negócio ou contrato, cujos principais objetivos estavam relacionados à segurança e à subsistência.

A sexualidade fazia parte da aliança firmada, mas tinha apenas fins de reprodução (ARENDT, 1991).

Com tudo isso, aquilo que se denominava família nessa época era constituído por um enorme grupo de pessoas. A vida das crianças, por exemplo, não estava especialmente ligada a de seus pais, mas se diluía no grupo, numa vasta gama de figuras adultas, que se incumbiam de sua instrução e cuidados. Atribuía-se pouco valor à privacidade e ao ambiente doméstico (ARENDT, 1991).

As casas, dos mais pobres aos mais ricos, possuíam um único cômodo, onde todas as atividades eram realizadas, que servia às mais diferentes funções ao longo dos dias. Ou então, havia cômodos que se comunicavam diretamente uns com os outros sem nenhuma privacidade ou especialização dos espaços. Móveis também não tinham funções específicas.

O amor romântico é inventado apenas no final da Baixa Idade Média. O amor cortês cantado pelos nobres trovadores na região de Provença parece ter sido a primeira manifestação do amor tal como o conhecemos hoje. Mas essa era uma paixão arrebatadora, proibida e vivida em sua significação de elevação espiritual. Trata-se de um amor idealizado, platônico, em que o sentimento devia permanecer puro, em que o impulso sexual era sublimado. O objeto precisava permanecer inacessível. Embora não fosse uma invenção da época essas aspirações eram revolucionárias enquanto movimento e deram origem ao romantismo. O amor passa a ser cantado pelos trovadores. Na impossibilidade de ser de fato vivido, o amor assume formas poéticas e imaginativas transbordantes e cheias de idealização.

Na segunda metade do século XVIII com a Revolução Industrial passa-se do sistema de produção agrário e artesanal para aquele que acontece nas fábricas.

Essa mudança é fundamental. O trabalho passa a acontecer longe das casas. Isso provoca profundas mudanças na concepção de homem e de mundo, bem como na própria estrutura de vida das pessoas.

Se antes havia uma mistura do espaço doméstico e social e as pessoas permaneciam grande parte do tempo fora de suas casas, estabelecendo junto com a coletividade suas atividades laborativas, festivas e de proteção da vida e da honra, agora começa a se definir uma distinção entre público e privado.

Aqui se inventa a intimidade. Surge aos poucos a vida familiar, privada. As casas se modificam radicalmente. Agora surgem o corredor, a sala, os quartos, delimitando a privacidade e as funções dos diferentes espaços se definem.

Ocorre a especialização dos espaços – lugar para dormir, para receber visitas, para comer, cozinhar etc. Uma casa com cômodos mais definidos foi provavelmente o marco mais significativo do surgimento da vida familiar e privada, que se separaram, então, da vida social.

As trocas afetivas passam a acontecer dentro da casa e uma parte significativa da vida deixa de ser vivida na rua e na comunidade para acontecer nesse novo espaço de intimidade (AZEVEDO, 1993).

é no decorrer desse período que se consolida o modelo da família nuclear burguesa, que prevaleceria durante muito tempo, especialmente, nas sociedades europeia e norte-americana.

O casamento por amor vai, aos poucos, ascendendo em uma escala de importância social até a era moderna, quando se estabeleceu como regra básica e motivo central das uniões matrimoniais. A partir do século XVIII, as uniões de homens e mulheres começaram a se orientar mais por laços de afinidade e atração, e a sexualidade passou a ocupar um lugar de prazer nessas relações.

Pautado agora no amor-paixão que pode acabar com o tempo, o casamento moderno enfrenta o desafio de redefinir expectativas e idealizações a respeito do parceiro e do que a vida conjugal pode prover (ARIÈS, 1981).

Nessa época, as casas também se transformam. É desse período a noção de conforto, tal como o concebemos hoje. A palavra lar, que representa mais do que o espaço físico, também surge nesse momento. Tudo isso surge apenas no século 18.

Diz Witolt (1996):

“O uso da palavra conforto apontava para a emergência de algo novo na consciência humana: o surgimento do mundo interno do indivíduo, do próprio ser e da família. O significado da evolução do conforto doméstico só pode ser observado neste contexto. Ele é muito mais do que a mera busca pelo bem-estar físico. Esta busca começa com a visão da casa como um ambiente para o aparecimento da vida interior. Enquanto as pessoas da Idade Média tinham pouca autoconsciência o interior de suas casas era vazio, incluindo aí os salões dos nobres e dos reis. Objetos no interior das casas surgiram com os objetos internos da mente” (p. 61).

Então, tudo vai se transformando. O amor começa a fazer parte da vivência dessa família moderna e a partir dos anos 1960 a família dita “contemporânea” – ou “pós-moderna” –, passa a unir, ao longo de uma duração relativa, dois indivíduos em busca de relações íntimas ou de realização sexual. A transmissão de autoridade e a definição de papéis tornam-se radicalmente distintos e mais complexos à medida que as pessoas se permitem viver separações, divórcios e recomposições conjugais.

Há uma ênfase nas relações igualitárias, em que as diferenças de gênero começam a ter cada vez menos lugar na conjugalidade. O “amor” também passa a ser condição para a permanência dos laços conjugais, dissolvendo as obrigações tradicionais cunhadas nas funções dos parceiros baseadas nas diferenças de gênero. A relação amorosa passa a ter grande importância na busca da identidade desse sujeito na modernidade, e um certo sentimento de vazio inerente à existência humana busca ser preenchido justamente no outro.

Ora, vemos que a família humana tem sido, basicamente, uma estrutura de cuidados. O ser humano tende a se agrupar nessa rede de relações de forma a se proteger e se abrigar de um mundo externo hostil. Cuidar, nesse caso já incluiu apenas as ações mais simples de garantir alimento e proteção contra perigos, mas foi se refinando com o passar do tempo. Com o tempo passou a abranger aquelas condições mais elaboradas de que um ser humano precisa para que possa se desenvolver como indivíduo.

A rede de relações familiares se propõe a ser esse escudo e essa rede de cuidados que dá abrigo ao nosso psiquismo. Idealmente falando, claro.

Pensando nessa rede de cuidados e proteção, podemos nos perguntar: isso ocorre numa família conjugal? E numa família monoparental? E numa família composta por um casal homoafetivo? E assim por diante..

Se aprofundarmos nosso olhar para a família, vemos que é em seu interior que o indivíduo mantém seus primeiros relacionamentos interpessoais com pessoas significativas, estabelecendo trocas emocionais que funcionam como um suporte afetivo importante e que lhe dão essa percepção de pertencimento. Também o sentido de ser único em um meio que reconhece como familiar é importante e isso se vive nas diferentes experiências de separação segura, que ocorrem por meio da participação em diferentes subsistemas familiares e em diferentes contextos familiares, tanto quanto pela participação em grupos extrafamiliares.

Segundo Minuchin (2009): “A experiência humana de identidade tem dois elementos: um sentido de pertencimento e um sentido de ser separado. O laboratório em que esses ingredientes são misturados e administrados é a família, a matriz da identidade”.

Pensando nesse espaço de pertencimento e diferenciação, podemos nos perguntar: isso ocorre numa família conjugal? E numa família monoparental? E numa família composta por um casal homoafetivo? A resposta parece ser “sim” e “não”, para todos os casos. Depende menos do arranjo do grupo familiar e muito mais das dinâmicas afetivas estabelecidas entre as pessoas.

Aprofundando-nos ainda mais, podemos dizer que, apesar da impossibilidade de descrever de forma homogênea as experiências nos grupos familiares, em todos os casos prevalece uma rede de relações interpessoais, onde ocorrem identificações e projeções subjetivas de grande significado. Elas são a origem dos processos de humanização dos arquétipos, da formação dos complexos etc.

Todos esses componentes e processos psíquicos se configuram como fatores fundantes da constituição do indivíduo e elementos essenciais dentro do seu desenvolvimento, não só na infância, mas também no processo de amadurecimento da vida adulta. Uma vez que o impulso para o desenvolvimento psíquico, ou individuação, tal como Jung percebeu e descreveu, permeia toda a existência, essa rede de vínculos e afetos é relevante tanto para adultos quanto para crianças.

 

PARA TERMINAR, ALGUMAS REFLEXÕES

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