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DA MESA “OS IMORAIS” DA FLIP 2015

Texto de Reinaldo Moraes para a mesa sobre poesia erótica brasileira

Chamei Virgília na chincha, como os pósteros mais acanalhados hão de dizer do século vinte em diante, algo que me é dado naturalmente saber, agora que desfruto da mais folgada e onisciente eternidade. Foi um amplexo de braços e pernas de sucuri famélica. Aproveitei para tacar-lhe a mão em sua fornida retarguarda, encontrando, em lugar das ansiadas nadegotas, nada além da armação e do estofado da famigerada anquinha que ela usava à ré por baixo do vestido, a empinar-lhe a silhueta feito pata choca, como se usava muito naquele tempo.

Todavia, a minha canhestra tentativa de fazê-la sentir a pujança túrgida do meu membro romântico viu-se em grande parte frustrada pelas insanas camadas de roupa que separavam a minha calça estufada na altura da braguilha da femínea região pubiana que eu tanto ansiava por ver, e tocar, e adentrar, mais ou menos nessa ordem, sem falar nos mais desafiadores seios já vislumbrados num decote nas valsas que havíamos contradaçado nas últimas semanas insanas numa feérica fieira de bailes.

Sob o vestido, abrigava-se uma profusão de sei lá que telas de armação, anáguas de cambraia, camisas de linho, bloomers, espartilhos de barbatana de tubarão, e mais corseletes, calçolas e calçoletas dos mais finos linhos e da mais alva e suave seda do Império do Meio.

Como diria meu desvairado amigo Quincas Borba, naquele momento Humânitas, o princípio ambivalente da vida, aqui em sua versão masculina, buscava com transcendente energia a Humânitas em versão feminina — e vice-versa, saliente-se, pois Virgília também parecia desejar-me com fúria. Mas entre Humânitas macho e Humânitas fêmea, interpolava-se a moda, essa intrometida e voluntariosa senhora envolta numa torrente de tecidos, vedando aos olhos e ao desejo do homem o único tecido que verdadeiramente lhe importa — o insuperável tecido epidérmico com que o Criador revestiu o corpo do primeiro homem saído do barro e, a seguir, o da mulher, feita de matéria mais refinada, qual seja, uma costela de homem al primo canto.

Como que adivinhando minhas ardentes intenções ao enlaçar e juntar seu corpo ao meu, com força e quiçá alguma violência, Virgília deslizou sua mão fina de fada — num de seus adelgaçados dedos luzia um solitário diamante que refletia e refratava o luar nas cores do arco-íris –, deslizou sua rica mão, eu dizia, até a região central da minha calça que abrigava àquela altura uma contrafação simbólica e miniaturizada de um gigante Adamastor ansioso por adentrar a epopéia, apresentar-se logo no proscênio — — “Eu sou aquele oculto e grande Cabo, / A quem chamais vós outros Tormentório”, já cantara Camões — e cumprir com denodada paixão os trêfegos desígnios de Cupido.

Ato contínuo, não me lembra se ela, se eu, ou se o indigitado Cupido, alguém, em todo caso, providenciou a soltura do gigante júnior, expondo o mitológico monstrinho ao sereno e às insidiosas correntes de ar frio que haveriam, anos mais tarde, de levar-me deste mundo, lugar divertido, afinal de contas, ainda que por vezes frustrante, enfadonho e fátuo, como nós viventes sabemos.

Eis que Humânitas, atuando desde as profundezas do psiquismo de Virgília, transmudou-se no mesmo instinto maternal que anima até o coração das feras, como o da loba que amamentou Rômulo e Remo nos mitológicos primórdios da antiguidade romana, e ordenou à sua hospedeira fêmea que se postasse de joelhos à minha frente, e hospedasse em sua boca o cabeçote luzidio do hirto cetro masculino de Humânitas macho, numa operação que aqueles mesmos romanos antigos houveram por bem apodar de felatio latino.

Sim, eis a verdade deliciosamente nua e crua que nem o manto escuro da noite infinita conseguia ocultar: Virgília sugava e delambia meu phallus indômitus com salivosa sofreguidão, enquanto eu depositava as mãos sobre o capuchinho estilizado que lhe cingia as madeixas castanho-aloiradas, acompanhando o sobe-e-desce daquela cabeça amada que com tanto fervor homenageava minha agora altiva cabeça auxiliar — a que age sem pensar e sempre a favor de si mesma.

Jogando minha cabeça para trás — a de cima, no caso –, preparei-me para vivenciar o transe gososo, fluvial, niloamazônico, que logo me acometeu, regido pela ambidestra lei de Humânitas. Por únicas testemunhas, as estrelas sempre complascentes com as loucuras dos amantes de todos os séculos, desde o mais remoto clichê da antiguidade até o maelstron insondável dos tempos futuros. O líquido e certo é que jorrei na boca de Virgília toda a minha felicidade de homem. O que faltou para tal momento atingir um inbaudito ápice poético na história geral das paixões humanas foi que Virgília deu de tossir um pouco, engasgada com a minha descendência descartável, e eu tive que lhe dar tapinhas nas costas, socorrendo a pobrezinha com meu lenço de Alcobaça, já um tanto maculado pelas secreções nasais resultantes do consumo de rapé, e ajudando-a a recobrar a postura bípede.”

Conclui Machado:

“Uniu-nos esse beijo único — breve como a ocasião, ardente como o amor, prólogo de uma vida de delícias, de terrores, de remorsos, de prazeres que rematavam em dor, de aflições que desabrochavam em alegria, — uma hipocrisia paciente e sistemática, único freio de uma paixão sem freio, – vida de agitações, de cóleras, de desesperos e de ciúmes (…).”

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