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Sobre o mistério de perdoar

A sala estava quente e muito iluminada quando Isabel* se sentou pela primeira vez à minha frente. Tinha vindo, aparentemente, com foco numa única questão, que verbalizou logo nos primeiros minutos do nosso encontro: “Preciso perdoar uma pessoa”. A partir dali contou uma história dura e sofrida.

Sua aspiração e sua história iam produzindo um contraste denso, que parecia se materializar nas sombras fortes projetadas na parede clara da sala, naquelas primeiras horas da tarde. Enquanto pensava nisso me inquietava com a pergunta: “Perdão é uma realidade possível diante dessas experiências extremas?”.

Isabel caminhou muito, caminhou para lugares muito distantes daquele lugar inicial, transcendeu, se superou, encontrou outras aspirações igualmente profundas e as seguiu, caminhou independente de mim e das perguntas que eu tinha naquela época. Mas o tema do perdão seguiu comigo guardando os seus mistérios.

Que coisa é essa? O que se passa de fato na experiência do perdão?

Penso nisso e vejo vários níveis e significados no ato de perdoar – éticos, morais, religiosos, espirituais. Impossível dar conta de tudo isso. Sobre o que tento refletir aqui é a respeito das emoções envolvidas, dos processos internos que têm lugar nessa experiência.

Nitidamente há coisas que parecem perdão e não são. “Perdão” que se mistura com culpa (não posso sentir isso), com arrogância (eu te redimo desse ato) e desejos do ego (sou magnânimo) não é perdão.

Por outro lado há formas de perdão sublimes. São experiências que trazem em si fortes transformações espirituais, o entendimento quase inalcançável pela consciência comum do todo de uma situação, um total descolamento do papel de vítima e uma união legítima da alma, que supera aparências transitórias, uma aproximação sem obstáculos com aquele ou aquilo que produziu o “mal”. Essas experiências são quase uma graça recebida – no sentido mesmo que muitas igrejas apontam –, uma dádiva, um milagre, não sei…

Mas fico pensando neste perdão que temos que despertar com certo esforço, que temos que construir, conquistar… Por onde ele passa, como se produz em nós?

Até onde minhas reflexões chegam hoje, embora seja dirigido para alguém ou para alguma situação, o perdão funciona em especial para o próprio “perdoante”. Ainda que parta de uma pessoa para outra, no fundo tem maior efeito em quem perdoa.

Ou seja, pedoar é verbo transitivo, mas a ação em si acontece independente do objeto, dentro do próprio sujeito que a realiza.

“Preciso tirar um peso de mim” era o que Isabel me dizia. Para a vida do pai – sim, do pai – que ela desejava perdoar, pelo que fui percebendo, ia fazer pouca diferença concreta ou imediata, dada a distância física e emocional que havia se estabelecido. Mas para aquela mulher que na metade da vida verbalizava seu desejo de perdoar esta era uma necessidade vital. Significava mesmo viver, poder deixar a vida seguir um fluxo em grande parte interrompido. Era questão de se livrar do tormento paralisante, de poder se lembrar sem doer, de viver os dias sem o fardo de um sentimento espinhoso, que marcava sua presença a cada passo ou ao menor movimento, que fosse de uma breve e curta respiração.

Aliás, respirar era uma das coisas que Isabel precisava fazer. Semana após semana vi sua respiração um tanto bloqueada à minha frente, o choro que ela fazia questão de conter quando estava ali. E aquilo que se expressava como uma tarefa que se devia ao pai, na verdade, era uma dívida daquela pessoa para com ela mesma.

Ela precisou falar da situação algumas tantas vezes e foi sentindo que não tinha condições de perdoar, porque o passado se manifestava intensamente ainda na vida presente. Era preciso primeiro se curar desses efeitos, de deixar o passado passar, de conseguir que ele não se fizesse mais tão presente, que as feridas cicatrizassem…

O que, enfim, fez realmente a grande diferença foi perceber que, no fundo, ela, Isabel, devia a si mesma o perdão.

E, então, aquele espaço de se expressar, de contar, foi permitindo que isso acontecesse. Como diz o incrível Guimarães Rosa, a confissão desestabiliza a “ordem das coisas e o quieto comum do viver”.

Depois que o antigo e gasto, já inútil passado se desestabilizou e se desconstruiu dessa maneira, Isabel foi podendo construir para si mesma uma nova história, novas narrativas. Outras referências guiavam seu caminho. Perdão havia se traduzido, ao menos para ela, como aceitação – aceitação de si mesma em primeiro lugar, e, a partir daí, como compreensão e a possibilidade de dar suporte dentro de si para a história vivida… com todos os seus personagens.

  • todos os nomes e situações são fictícios

 

 

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