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É possível explicar o trágico às crianças?

Partindo do princípio de que cada família adota uma forma de criação diferente, que tem um estilo próprio na educação das crianças, muita coisa é possível nesse âmbito. Um leque bastante grande de atitudes cabíveis diante do que aconteceu recentemente no mundo (de forma mais evidente para a coletividade do Ocidente europeu e americano e sul-americano) e também uma série de atitudes surpreendentes, e absurdas até, têm lugar quando se trata de explicar às crianças coisas chocantes como os atentados de novembro, em Paris.

Antes de fazer isso, no entanto, cabem umas tantas perguntas: qual a proximidade da criança com esses fatos? Eles são parte importante da vida dela ou não? Que idade e que experiências e, portanto, que entendimento a criança pode ter do que acontece à sua volta ou do que aconteceu?

Talvez o principal norteador a respeito da atitude a ser tomada seja a máxima percepção possível de que uma criança não é um adulto em miniatura. Precisamos fazer esse bem às crianças: não as encaixemos numa visão distorcida de que elas são adultos, nós mesmos, em tamanho pequeno. Não. Sua capacidade de elaboração de fatos é diferente da nossa, sua bagagem de experiências e referenciais é outra, seu processamento e seu pensamento lógico ainda está se desenvolvendo, sinapses estão sendo feitas, ate a noção de tempo e espaço e de lugares ainda está se especializando. Isso para falar no mais básico, aceitável e observável por todos.

Se não temos uma resposta para o que aconteceu, se não estamos lidando bem com isso, se simplesmente estamos com ódio ou tendo outras atitudes reativas, não precisamos expor as crianças a isso, elas que olham com sua admiração natural para as notícias estranhas que saem da TV e outras mídias e aportam no meio da sala, na mesa de jantar e assim por diante.

A depender da ligação da criança com os fatos e da sua idade, cabe desde uma proteção total mesmo contra a notícia até uma participação direta no processo de elaboração, no luto e na internalização de que coisas bárbaras acontecem neste mundo.

Alguns alegam que não se pode proteger as crianças do “mundo real”. Mas qual é o ganho para uma criança pequena e que mora muito distante dos fatos recentes de ser invadida por notícias que ela não consegue entender? Este é seu mundo? DE que mundo real estamos falando? Qual é a sua realidade?

Criança é criança e precisa, até uma certa idade, da percepção e da segurança de que o mundo é um lugar bom. Como tudo, se algo é oferecido em momento inadequado, ao invés de produzir o efeito desejado, torna-se um mal. Uma criança exposta desnecessariamente ao trágico pode desenvolver frieza e uma blindagem a respeito do que vem de fora. Ela não desenvolve compaixão nem atitudes corretas de autodefesa e de responsabilidade pelo meio em que vive, pelas outras pessoas etc. É preferível para a criança pequena lidar com a morte do animal de estimação do que com uma notícia estrangeira dramática, que ela não tem capacidade de assimilar – mas muitas e muitas vezes mandamos nossos animais queridos que estão se despedindo para o sacrifício na clínica veterinária e deixamos a barbaridade vivendo em nossa sala por meio dos noticiários repetitivos.

É claro que o trágico às vezes é inevitável e nos invade. Lidamos com isso diariamente na vida humana em geral, Eu frisaria: em geral. E, então, somos todos, adultos e crianças, forçados a lidar com ele.

Mas não querendo ir muito longe nessa reflexão, só diria, além do que já disse, que imagens falam mais às crianças  do que explicações racionais. Conseguimos nos aventurar a ir a seus corações nesses momentos? Buscar essas imagens ajuda no envolvimento mais sadio, mesmo que muitas vezes difícil, com os fatos. Ajuda nossa própria criança também.

Um viral das redes que vale muito a pena4617760

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