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Casa (capítulo da dissertação de mestrado “A casa de um jovem casal – a constituição dos espaços da casa como campo de símbolos expressivos da construção da conjugalidade”)

CASA, EXPERIÊNCIA ESSENCIALMENTE HUMANA

Juntamente com a alimentação e o vestuário, a casa é um dos elementos cotidianos mais antigos da humanidade. Desde tempos imemoriais, precisando se proteger de um ambiente naturalmente hostil o homem buscou abrigos, de modo que pudesse estar em segurança. Precisou, dessa maneira, delimitar espaços e adequá-los às suas necessidades, de forma a garantir a sobrevivência e minimamente controlar os efeitos dos eventos ambientais.

À medida que esse abrigo foi deixando de ser um lugar provisório, encontrado muitas vezes de forma imprevisível e ao acaso, o homem passou a estabelecer com ele uma relação particular e mais especial. Criaram-se gradualmente vínculos não só com o espaço ocupado, mas com os elementos que o compunham, o que fez o ato de se abrigar evoluir para a experiência de habitar. Esta pressupõe uma relação mais íntima, profunda e essencial entre o homem e um lugar.

Reconhecendo a nova relação que estabelecia com determinados espaços, o ser humano compreendeu que deveria domesticar, individualizar e até personalizar esses espaços. É desse processo que surge o conceito de casa, um lugar destinado a ser refúgio e proteção, mas que também passou a ser “um território de pertença e de identificação” (RODRIGUES, 2008, p. 30), para um indivíduo ou para um grupo de indivíduos, como uma comunidade ou uma família, por exemplo.

Casa – do latim casa ou casae – é o nome comum dado a todos os edifícios especialmente destinados à habitação. Possui também o significado de família, como em “casa d’Orleans” etc. Porém, como mencionado na introdução deste trabalho, estamos tomando a casa aqui, ao menos inicialmente, no sentido de “construção (…) destinada à habitação; moradia; residência; vivenda” (AULETE, 2015). Ou seja, a princípio e a título de aproximação ao tema, quando falamos de casa estamos nos referindo à edificação concreta, com suas divisões e espaços, móveis e objetos.

No entanto, esta é apenas como que uma porta de entrada. Não podemos nos ater a ela. A casa nos convida e nos presenteia com muitas outras imagens, significados e experiências. Como destaca Bachelard (1993):

(…) a casa é, à primeira vista, um objeto rigidamente geométrico. Somos tentados a analisá-la racionalmente. Sua realidade inicial é visível e tangível. (…) Tal objeto geométrico deveria resistir a metáforas que acolhem o corpo humano, a alma humana. Mas a transposição para o humano ocorre de imediato, assim que encaramos a casa como um espaço de conforto e intimidade, como um espaço que deve condensar e defender a intimidade. Abre-se então, fora de toda racionalidade, o campo do onirismo (p. 64).

Corroborando com este ponto de vista, da Matta (1985) diz que a casa, que normalmente aparece nos estudos sociológicos e antropológicos muito mais como palco, um mero local físico, onde atores – os membros integrantes das famílias e outros personagens – encenam seus dramas, é muito mais do que isso. Para este autor, a casa é um “espaço moral” (DA MATTA, 1985, p. 16), onde grupos heterogêneos de pessoas se integram. Assim, a casa não pode ser apreendida por meras medidas tomadas com instrumentos métricos, mas é um espaço que só se define e se deixa capturar com precisão quando tomada em suas relações.

Para Bachelard (1993), é próprio indivíduo que se “unifica” na casa. Ele aponta que a casa é uma das maiores forças de integração do homem. Do seu ponto de vista de filósofo e fenomenologista, a casa, abrigando o devaneio, conecta pensamentos, lembranças e sonhos, bem como o passado, o presente e o futuro, além de dar um sentido de continuidade e contingência. “Sem ela, o homem seria um ser disperso”, diz o autor (BACHELARD, 1993, p. 26).

Vemos nesta pequena introdução que o fenômeno “casa” é bem mais amplo que a mera construção física. Então, do que se trata de fato essa entidade?

Sabemos que no nascimento, ao deixar o ventre materno, a criança precisa como que de um outro envoltório que substitua este habitat inicial e que lhe dê proteção e ofereça as demais condições necessárias para a sua existência e desenvolvimento. Este lugar é a casa.

Podemos afirmar que tanto a família quanto a casa são originalmente um “lugar” de descanso, proteção e refúgio, uma guarida contra um mundo externo hostil. Nelas, pode-se viver a intimidade e outras condições favoráveis à existência e ao desenvolvimento humanos.

A família se constitui como o lugar em que as pessoas podem parar, dormir e comer, expressar a intimidade, se proteger e se abrigar de obstáculos, sendo provável que em todos os momentos e em todas as sociedades os seres humanos, organizados em grupos familiares, independentemente do arranjo que estes assumiram, tenham procurado justamente satisfazer tais necessidades (MANDELBAUM, 2011). Tal afirmação, feita em relação à família, pode facilmente ser aplicada à casa, evidenciando a conexão entre ambas.

Esses lugares existenciais primários, do útero à casa, embora indiscutivelmente distintos em termos conceituais e formais, coincidem no que diz respeito ao caráter de abrigo, intimidade, recolhimento, interioridade, acolhida, conforto, pertencimento e identidade. É nisso que o abrigo humano sobrepuja o abrigo de um animal e ganha as qualidades daquilo que ao longo da história acabou sendo denominado de lar.

Interessante assinalar neste ponto que em sua origem etimológica lar significa a pedra ou o local da habitação onde se acendia o lume, o fogo, tendo esta palavra dado origem depois a outro vocábulo que também reúne os significados de fogo e casa: lareira (LEMOS, 1989; RODRIGUES, 2016). Além disso, o local onde em tempos mais remotos o fogo era acesso era justamente no centro da habitação. Segundo Rodrigues (2016), foi o próprio fogo que motivou a construção das cabanas e das primeiras casas, erguidas então com a função de abrigá-lo em seu centro.

(…)

Segundo Freitas (2005), toda cidade grega tinha uma lareira comunal, onde o fogo público era sempre mantido e Héstia era reverenciada. Ela era venerada também no centro dos templos e nas casas mantinha-se permanentemente um fogo aceso em sua homenagem. O lugar deste fogo na casa, uma espécie de lareira, era reverenciado e muito bem cuidado e, ao redor dele, a família se reunia para preparar o alimento, buscar calor e iluminação. De fato, todas as atividades, tivessem elas caráter prático ou simbólico, aconteciam ao redor do fogo.

Segundo Vernant (1990, apud LIMA, 2007), era ao redor da lareira de Héstia que uma pessoa estrangeira era integrada à casa, tecendo-se assim uma rede de alianças entre indivíduos e entre diferentes grupos.

A presença de Héstia também é responsável por tornar uma casa ou um templo algo mais do que uma simples construção. Nas palavras de Freitas (2005), com Héstia “o espaço torna-se ambiente psicológico, ganha alma…”. Portanto, na experiência que o ser humano tem da casa, é a esta deusa que cabe o poder de transformar a construção concreta e fria em útero, ninho, berço, abrigo, concha e lar. É desta casa que contém a presença de Héstia, e também a centralidade e o fogo, que estamos tratando aqui.

(CONTINUA)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

AULETE, C. Aulete digital: dicionário contemporâneo da Língua Portuguesa. Disponível em: http://www.aulete.com.br/. Acesso em: 15 Dez. 2015.

BACHELARD, G. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

DA MATTA, R. A casa e a rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1985.

FREITAS, L. V. O calor e a luz de Héstia: sua presença nos grupos vivenciais. Cadernos de Educação (UNIC), Universidade de Cuiabá, Ed. especial, Cuiabá, 2005, p. 131-145.

LEMOS, C. A. C. História da casa brasileira. São Paulo: Contexto, 1989.

LIMA, G. Héstia. In: Alvarenga, M. Z. (Org.) Mitologia simbólica: Estruturas da psique e regências míticas. São Paulo: Ed. Casa do Psicólogo, 2007.

MANDELBAUM, B. L’espace famille et sa rupture: entre les souvenirs et les rêves. Le Divan Familial, v. 26, Paris, 2011, p. 67-75.

RODRIGUES, A. L. A habitabilidade do espaço doméstico: o cliente, o arquitecto, o habitante e a casa. Tese de doutorado. Universidade do Minho, Escola de Arquitectura, Braga, 2008.

RODRIGUES, S. C. C. O fogo como centro e símbolo da casa. Revista arq.urb, número 15, primeiro semestre de 2016. São Paulo, 2016.

 

 

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