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Papai Noel existe – uma proposta de reflexão para adultos

Minha filha tinha quase sete anos, ou talvez um pouco mais que isso, quando lançou pela primeira vez a pergunta sobre a existência desses seres a quem atribuímos uma presença muitas vezes invisível e uma existência fantástica. Era Páscoa e a pergunta tinha a ver com o coelho que trazia ovos. Eu havia passado uma parte da noite anterior preparando a surpresa, os ovos, embrulhos, esconderijos, marcas e sinais de uma visita incrível, o que sempre me divertia enormemente. Naquele momento, todos já haviam acordado e, excitados, tinham procurado e achado os ovos, lido bilhetes e comido pequenos e grandes pedaços de chocolate.

No meio da tarde, numa conversa em particular e em tom de quem fala de algo perigoso veio a pergunta: “Mas o coelhinho existe mesmo?”. Decidindo se me sentia triste ou quase ridícula, percebi uma leve melancolia apontar, enquanto pensava que talvez a fantasia estivesse se despedindo e fosse hora de eu deixá-la ir. Não respondi nada e devolvi outra pergunta: “Por que você está perguntando…?”. Para minha surpresa, a conversa mudou repentinamente de direção.

O assunto era a Páscoa, mas a reflexão cabe perfeitamente aqui no Natal. Papai Noel existe? Quem traz os presentes? E para nós adultos: estamos mentindo às crianças e é danoso criar e manter essa fantasia?

Não posso me esquecer de outra situação, aquelas constrangedoras de elevador, em que, em pleno dia de Natal, estando eu e uma vizinha descendo depois de um “bom dia” natalino generoso, vemos entrar no elevador, em clima igualmente alegre, um pai com um menino pequeno, que não devia ter nem seis anos de idade. Minha vizinha, uma senhora muito simpática, perguntou sorridente para a criança: “E, então, Papai Noel trouxe muitos presentes?”. O semblante do pai mudou drasticamente e, sem dar a mínima chance de a criança nem tomar ar para dizer algo, ele respondeu cortante: “Meu filho sabe que Papai Noel não existe”. O menino baixou o rosto. Eu também. Não tenho a menor ideia que expressão as pessoas fizeram. Eu me senti muito sem graça e, principalmente, sem alegria. O elevador seguiu descendo em seu movimento monótono, carregando quatro pessoas e um silêncio descomunal.

Criar, alimentar e manter a fantasia? Ou “não mentir”, dizer como o mundo é e expor logo a “realidade” às crianças? Não posso dizer que muitas vezes não me vi diante dessas perguntas. Mas elas nunca chegaram a criar um dilema dentro de mim, porque imediatamente me vinham ideias que eram como uma resposta eloquente: mas o que é a verdade? O que são o mundo e a realidade, afinal!?

Mitos, lendas e contos primordiais são uma forma antiga de obtenção e transmissão de conhecimento. O homem das sociedades antigas sentia-se vinculado de forma indissolúvel ao Cosmos, sendo este considerado como uma criação dos deuses, um trabalho de organização de seres sobrenaturais ou heróis míticos. O Cosmos e, portanto, a sociedade humana que a ele estava unida possuíam, assim, uma história sagrada. Esta história era preservada e transmitida por meio dos mitos.

Assim, os mitos, sendo repetidos continuamente desde tempos muito antigos (infelizmente cada vez menos) relembram ao homem ou a uma comunidade verdades primordiais, a criação do mundo e seu funcionamento. Essas histórias assumem, dessa maneira, a função de manter e difundir os padrões, ou modelos exemplares, de todas as atividades importantes do homem na Terra.

Os mitos e lendas preservam também a nossa conexão com toda aquela gama de aspectos mais sutis da vida, que não alcançamos com os olhos nem com uma mente lógica. São aspectos emocionais, morais, éticos, psíquicos. Negamos a existência dessas instâncias da vida? Okei. Foi mesmo um duro golpe ao narcisismo do homem a afirmação freudiana a respeito da existência do inconsciente. Infelizmente ele é muito mais amplo do que tudo aquilo que está acessível à nossa consciência e nos influencia e dirige muito mais do que desejamos.

Enfim, crianças pequenas não são adultos em miniatura. Seu funcionamento, inclusive cerebral, é muito diferente, pois muitos sistemas ainda estão em desenvolvimento. Assim, uma criança pequena, ao ouvir que Papai Noel existe, imagina e se conecta com algo muito diferente daquilo que nós, adultos, imaginamos e com o que nos conectamos. Deixá-las em contato com histórias mitológicas, com lendas e contos é preservar a conexão com aspectos sutis da vida psíquica e espiritual do ser humano e da humanidade.

Naturalmente a pergunta sobre a existência “de fato” de Papai Noel, coelhinho da Páscoa etc. irá surgindo, e transformações acontecerão. Papai Noel poderá se manter vivo como esse espírito de generosidade que permeia a festa da natividade. Ou o simbolismo da viagem dos três reis magos que peregrinaram para entregar seus presentes será revivido. A vida manterá sua alma nesses conteúdos cheios de significado.

Naquela Páscoa de tantos anos atrás, alguns poucos dias depois de lançada a pergunta, numa manhã ensolarada, escutei gritos na janela: “Mãe, mãe, mãe, vem ver! Vem ver rápido!”. Corri – não, voei – em direção à janela, diante da urgência do chamado. Olhei para onde o dedinho apontava e ouvi: “O coelhinho da Páscoa!”. Então, vi, pela primeira vez na minha vida, o coelhinho que tinha vindo na Páscoa. Subindo uma pequena alameda do jardim, saltitava um coelho malhado de cinza – provável morador de uma mata vizinha, explicou minha mente lógica. Até hoje essa cena, que trouxe a resposta à pergunta suspensa de dias atrás, me emociona. O coelho da Páscoa viera sim e ainda estava por ali. E voltaria por muitos anos mais. Na verdade, depois daquele acontecimento, ele virá para sempre, animado por essa imagem viva na memória.

Não tenho uma religião cristã. No entanto, eu me sinto envolvida pelo clima do Natal (como também o da Páscoa e de algumas outras festas cristãs). Assim, hoje, dia 25 de dezembro, acabamos de trocar presentes em família. Enquanto já estava pensando nesse tema, pude ver com alegria que esses presentes foram significativos, não meramente objetos de consumo. Eles têm uma história, viajaram até chegar aqui, foram procurados com carinho. Foram entregues com um certo rito e com alegria. Embrulhos e papeis e histórias permearam a troca. Percebo que tudo isso ajuda a reforçar e manter a nossa conexão. Principalmente, sinto que nos ajuda, mais um ano, a nos conectar com aspectos importantes da vida e com aprendizados individuais e comunitários que precisamos desenvolver.

Assim, desejo a todos um feliz e verdadeiro Natal, com o espírito vivo de papais e mamães Noéis ou de tudo aquilo que tenha significado para cada família ou pessoa – adultos ou crianças! Feliz Natal!

 

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