Iana Ferreira

Quando o melhor lugar é mesmo aqui e agora – onde quer que seja!

Fim de tarde, começo de uma noite quente no Rio. Penso em fazer uma caminhada até Botafogo para encontrar amigos. Mal planejo, desaba a maior chuvarada. “Tudo bem”, penso enquanto tomo banho, “posso mudar de ideia quanto à caminhada, mas vou mesmo assim”. Alegria. Sem dúvida, encontrar os amigos vale a pena. O som das diferentes águas, da chuva e do chuveiro, se mistura, enquanto o ar condicionado disfarça o calor que está lá fora.

A chuva acaba indo embora do jeito que veio, rápida. Alegro-me mais. Vou de Uber de qualquer forma, porque, distraída, me atrasei um tanto. Tudo bem. Encontrar os amigos vale mesmo a pena, e chegar tarde não chega a ser um problema. Alegria também. No caminho, uma árvore caída na rua provoca uma voltinha mais ou menos longa. Tudo certo. Estou de férias, meu deus, e o que é um desvio no caminho se você tem tempo?

Na verdade, minha mente está de férias – fui dizendo isso pra ela quando planejei a viagem, quando arrumei a mala, quando peguei o avião etc. Agora simplesmente desfruto desses momentos como eles são, da forma como acontecem.

Quando enfim consigo chegar, ainda penso se preciso estar de férias para as coisas serem assim!

Na conversa que tenho nessa noite um dos assuntos é: se a mente está em paz, você se sente feliz. E viajo em reflexões e imagens de experiências pessoais…

Sim. Quantas vezes não fui tomada por desejos, muitas vezes impostos de fora – convenções sociais etc. –, e batalhei ansiosa e duramente para realizá-los. Faço isso com frequência. Acho que todo mundo faz, não é? Ou não? No entanto, a despeito dos nossos esforços, muitas coisas podem atravessar nosso caminho, tal como a árvore caída no meio da rua.

Em primeiro lugar, é possível que o sucesso não venha. É, infelizmente, pode ser que passemos anos buscando algo e não alcancemos ou demoremos muito para alcançar o que buscamos – atrapalhados, na maioria das vezes, por nós mesmos, aliás. Resultado: sofrimento, angústia, ansiedade, desistências.

Segundo, com frequência não temos uma boa aparelhagem – psíquica ou mental… – para viver o que é conquistado. Assim, com um trabalho novo, podem vir novas preocupações, desavenças, falta de tempo, esgotamento. Com uma experiência amorosa, não há garantias de que não cheguem também ciúmes, insegurança, frustrações, desilusões, ansiedade e medos. É uma questão de tempo.

Lembro-me de um estudo que comprovou que pessoas que atravessam transformações intensas para o bem ou para o mal – enriquecer com um prêmio de loteria ou sofrer um acidente com graves sequelas – em menos de um ano voltam ao estado mental que tinham anteriormente. Isso quer dizer que alguém positivo, otimista etc. enfrentará um acidente e o processo de recuperação, por exemplo, com essas mesmas qualidades. E um estado mental negativo pode ser a base para outra pessoa afundar em problemas, mesmo com a conta no banco subitamente bem recheada – ou até fazê-la perder tudo, porque não tem habilidade de lidar com a nova situação. Penso na Laís Souza e num sorriso que sempre me arrebata, porque tem um lado meu que tende à melancolia e fica boquiaberto com isso.

Então, voltamos ao ponto: é preciso ter boas condições internas para viver bem. Penso que é preciso estofo e outras qualidades para experienciar o que quer que tenhamos que experienciar externamente. E essas qualidades são nossas. Não estão em nenhum outro lugar, em nada mais, nem em mais ninguém. Boas condições fora não garantem nada. Boas condições dentro fazem tudo.

Não é fácil acreditar e manter uma busca por algo tão impalpável. Até porque quase ninguém senta numa roda de amigos para conversar sobre isso.

Sigo conversando internamente sobre isso mais tarde, quando pego um Uber de volta para casa onde estou hospedada. E o assunto fica comigo nesses dias que se seguem às minhas férias no Rio.

A propósito, a conversa daquela noite foi deliciosa e meu amigo carioca que tocou no assunto que inspirou este texto é monge budista. E eu acredito que a psicologia surgiu há pelo menos 2500 anos com Buda, um dos primeiros grandes cientistas da mente – ou o primeiro deles! Seu conhecimento foi tão profundo e essencial que é atual até hoje. Isso não tem necessariamente a ver com um caminho religioso, como podem ver…

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