Um motivo para nunca se fazer terapia

Há um motivo para nunca se fazer terapia. Conto qual é: autoconhecimento. Explico: nunca se chega ao consultório de um terapeuta ou analista em busca de autoconhecimento puro e simples, de se conhecer melhor. Se você diz que é esse o seu caso, é bem provável que não esteja em terapia. Arrisco dizer que escolheu alguma forma de entretenimento e agora, munido de uma boa ilusão, navega em águas rasas, lutando de verdade para nunca fazer contato com suas dores mais profundas.

Ninguém chega ao consultório trazido pela busca de autoconhecimento. Autoconhecimento simplesmente não nos interessa quando as coisas na vida estão indo bem. O que leva as pessoas ao consultório de um psicólogo é uma entidade extremamente impactante e desagradável, rejeitada mesmo, posta fora da vida, em especial nos dias de hoje. Essa entidade é o fracasso. Pois é. Só entramos num processo de terapia porque algo fracassou, algo ruiu como uma montanha gigante, que entrou em colapso e desabou com estrondo.

O fracasso chega como um terremoto, abalando um terreno que considerávamos seguro, em geral todo um projeto de vida, que pode estar ligado à constituição da família, ao trabalho ou qualquer realização que se considerava de vital importância. Lá atrás, os acontecimentos já iam dando sinais de instabilidade e decepção. Já aconteciam pequenos abalos, mas podíamos não dar atenção e insistir em nossos planos. Só mesmo quando o tremor mais forte chega é que nos levantamos do sofá atônitos, saímos correndo atarantados e aos poucos nos damos conta de que algo sério aconteceu. Então, é possível que olhemos de volta para a nossa sala e enxerguemos uma grande rachadura no chão. As paredes também estão trincadas.

***

Passemos agora, então, às boas notícias. Olhar pela grande fenda que o fracasso abriu no meio da sala nos faz ver nosso mundo interno. Lá está tudo o que falhou, os planos frágeis que não tinham base para se sustentar e desabaram, nossas ingênuas ilusões e teimosias. Ora, o fracasso é um aliado. Ele veio atuar como um mensageiro. Apenas ele tem essa potência de vencer nossa visão parcial e obsessiva e nos mostrar as estruturas precárias e mal construídas, que há muito tempo estavam em situação crítica sem que nos dispuséssemos a percebê-las. O fracasso nos dá notícias a respeito daquilo que não queríamos ver. Fazendo isso ele nos salva de nossos planos frágeis, infrutíferos ou até perniciosos.

Tudo na natureza vive em estado de constante movimento entre desequilíbrios e reequilíbrios. Viver acarreta o tempo todo este intenso labor. Não há vida sem trabalho. Pois bem, o fracasso veio em nosso socorro. Sua presteza é a de chamar a atenção para tarefas às quais nunca desejaríamos nos dedicar. Fracassar nos dá muito trabalho, sendo que o principal é nos inquietar a ponto de pararmos para reelaborar rotas e entendimentos.

Lembram-se da fenda no chão da sala? Até então não tínhamos a menor ideia do que passava ali por baixo. Depois do abalo produzido pelo tremor principal do fracasso, começamos a olhar para essa fenda assustadora e para as camadas subterrâneas que ela revela. O fracasso arromba uma fenda na alma, mas com isso ele muito simplesmente nos convoca a entrar em contato com uma amplitude bem maior da própria vida, duvidando enfim dos planos e visões limitadas do ego. Ele acabou de criar uma ruptura, um corte nas ilusões. Precisávamos nos frustrar. Isso acorda a nossa consciência, resgata os anseios sábios da alma mais profunda, tudo o que havia caído como presa num evento em curso nas profundezas. O fracasso nos faz olhar os sentimentos que agora escapam enlouquecidos através da fenda aberta na sala e que antes estavam contidos no subterrâneo por atitudes despreocupadas e habituais. As vozes que chegam até nós então, a partir dessas camadas mais profundas, nos colocam enfim em contato com uma torrente de impulsos inconscientes, nem sempre fáceis de se decifrar.

Pois bem, o que significa tudo isso é que aquilo que antes se equilibrava muito precariamente enfim ruiu. A derrota e o revés são apenas o movimento natural da vida em busca do equilíbrio. É por causa dessas coisas que saímos da sala, atravessamos a cidade e vamos para a análise ou psicoterapia. Veneno e remédio ao mesmo tempo, é o fracasso que nos toma pelas mãos e leva a um processo bem pouco natural e prazeroso: a terapêutica da alma mais profunda. O autoconhecimento virá, mas não é um entretenimento prazeroso, desses que se põe e se tira de moda. Não é um nado raso num lago de águas plácidas. Isso não tem a ver com terapia.

A longo prazo, no entanto, e tendo coragem de mergulhar no escuro, certamente conseguimos subir à superfície de novo e flutuar em águas tranquilas olhando as nuvens. É o movimento natural da vida. Fazê-la voltar a fluir muitas vezes requer a humildade de buscar auxílios e pontos de apoio fora de nós.

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