Psicoterapia e a ética nossa do dia a dia

Toda cultura ou sociedade constrói seu código moral, ou seja, uma série de regras acerca do bem e do mal, do permitido e do proibido, do correto e do incorreto. Nascemos em meio a este conjunto de valores institucionalizado e comumente naturalizado, ou seja, o código moral, as regras de conduta estabelecidas, é tomado como fato natural, existente por si mesmo e, por conta disso, muitas vezes inquestionável. As normas podem também ser sacralizadas, quando, por exemplo, as religiões as revestem de um aspecto sagrado. Isso leva a uma inquestionabilidade ainda mais intensa de tais normas, sendo que aqui, veja, não há nenhum juízo de valor a este respeito.

Uma coisa bem diferente é a ética, instância que de fato nos interessa. Correndo riscos ao tentar simplificar um assunto bastante multifacetado, aventuro-me a dizer que, enquanto a moral são os costumes estabelecidos e seguidos coletivamente, a ética inclui o caráter, a disposição e a consciência moral individuais, atitudes adotadas pessoalmente, numa avaliação pessoal e empática de situações, nossas e de outros seres, com base em ideias como justiça e injustiça, generosidade, integridade etc.

O que tudo isso tem a ver com a psicoterapia ou o que a psicoterapia tem a ver com tudo isso?

Exatamente isso: tudo. É claro, veja: uma pessoa busca terapia por quê? Basicamente porque está sofrendo. E sofre por conta de seus desejos, sentimentos, experiências, expectativas, que em geral encontram obstáculos em sua expressão ou realização ou que estão carregados de conflitos ou marcados por uma ausência de sentidos. O material da terapia é, portanto, exatamente este: desejos, sentimentos, experiências, expectativas, expressão, realizações, conflitos e, em especial, a busca de sentidos de uma pessoa. Muito bem. Acontece que nada disso existe por si mesmo, mas se insere num todo maior, que são o grupo social, a convivência com outras pessoas ou seres, com circunstâncias externas e com o próprio planeta, nossa casa em comum.

Portanto, a questão é simples: sempre que este contexto maior está presente, temos uma conduta moral, ética e até poética e estética envolvida. E quando é que ele (o contexto mais amplo) não está (presente)? É impossível trabalhar com questões pessoais isolando o indivíduo do seu ambiente, grupo social, relações com outras pessoas e situações e com próprio planeta. Como seres humanos, estamos sempre “em relação”! E “em relação” temos a questão ética sempre envolvida.

Assim, o modo como se dão essas relações, como são as negociações feitas entre o eu e os outros, o meu e o dos outros, o eu e o mundo é de suma importância. A qualidade dos vínculos entre essas instâncias – o eu, o outro e o mundo – é foco dos processos psicoterapêuticos e também determinante para o desenvolvimento da ética, sendo que tal vinculação é de natureza afetiva e requer consciência e criatividade existencial, o que nos leva de novo ao campo da psicoterapia.

Importante dizer que a moral de nada interessa na análise ou terapia psicológica. Este ponto é de enorme importância realmente. Alguém que está excessivamente preso e se movimenta apenas com base em códigos morais não faz uma elaboração pessoal, empática e consciente de seu modo de estar no mundo. Essa pessoa pode ser moral (em geral se torna moralista), mas não é ética. Repetir sem escolha regras morais não necessariamente torna um ser humano melhor. Ao contrário, sabemos – e cada vez isso está mais escancarado aos nossos olhos – que a moral pode ser um belo escudo e disfarce para um caudaloso rio de desejos e condutas pervertidas mal elaboradas. Moral realmente não importa em terapia, a não ser na medida em que traz pistas sobre significativos conteúdos pessoais reprimidos.

Assim, tudo aquilo que se comprime atrás de regras morais precisa vir à tona, sem repreensões, julgamentos ou críticas. Apenas dessa forma, conseguindo ter acesso a este rico material que povoa nosso mundo interno e que faz parte da nossa inteireza humana, é que podemos ampliar nossa consciência a respeito de nós mesmos e então conquistar mais liberdade em relação ao que sentimos, ao que pensamos e como agimos.

Em terapia, de fato, não interessa banir nada de “mal”. Para onde iria um sentimento “ruim” se ele fosse encarado apenas por meio de regras morais, seguindo-se, sem escolha, um código com o qual nossos anseios mais profundos realmente não concordam? Em termos psíquicos, tal sentimento permanece vivo e, em geral, neste lugar sombrio e inacessível para onde é arremessado, até cresce e se fortalece. Por isso, o único caminho a percorrer é receber, olhar e, palavrinha já tão batida entre psicólogos, integrar o que se sente. Atitudes e uma postura de cuidado, compromisso e responsabilidade como esta são imprescindíveis para a construção de uma vida pessoalmente mais rica e, então, também muito mais ética, num real, saudável e profundo interesse, que fica livre para circular entre o si mesmo e os outros.

É preciso reconhecer que em nós, seres humanos, habitam de maneira antagônica e também complementar tanto o individual quanto o coletivo, a inclusão e a exclusão, o ser como entidade particular e também como pertencente ao que é comum, o afetar e o ser afetado, o egoísmo e o altruísmo. Estas são forças contrárias que pedem constantemente que encontremos pontos de equilíbrio para vivermos experiências salutares.

A psicoterapia, embora aparentemente volte o olhar para uma única pessoa, sua narrativa, sua história, sua perspectiva das situações e assim por diante, não perde de vista, quando bem realizada, um horizonte muito amplo e uma rede bastante extensa de ressonâncias, que também é alcançada pelos efeitos benéficos de cada melhora, realização, ampliação de liberdades e consciência. Colocado de outra ponto de vista, quando nos tornamos melhores em relação a nós mesmos, inevitavelmente melhoramos a nossa vida e a do nosso entorno. As conquistas preciosas advindas deste cuidado e responsabilidade carregam de verdade e beleza ética as nossas experiências cotidianas, tanto naquilo que diz respeito ao âmbito individual quanto ao que é coletivo.

 

Este texto está baseado em ideias como as de Edgar Morin, Humberto Maturana e nas colocações filosóficas de Marilena Chauí. Ele foi publicado no Jornal d’Aqui, Granja Viana, Cotia, SP, em junho de 2019.

 

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